Após leitura atenta das várias entrevistas de Filipe Soares Franco sobre a actualidade e planos de futuro para o Sporting Clube de Portugal, foi notório que a aposta num futuro clube-empresa é para reforçar. Demonstra também descontentamente e revela não compreender o porquê da cada vez mais expressiva desmobilização e descontentamento dos adeptos do Sporting Clube de Portugal, que há 15 anos atrás enchiam o defunto estádio de Alvalade num jogo contra um Farense ou Beira-Mar apesar dos consecutivos anos de insucessos desportivos.Ora antes de mais importa dar uma vista de olhos num futuro Sporting-empresa e porque e como é que o Sporting poderá ser atractivo para investidores.
Ora um investidor, ao contrário de um sócio ou adepto, procura receber contrapartidas pelo seu investimento. Dito curto e grosso, quer ganhar dinheiro. Ora o Sporting, tendo em conta o nível de vida do povo Português e a fraca expressão internacional da nossa liga, nunca será um sucesso de merchandising ou de venda de direitos publicitários como por exemplo um Manchester United, logo esta hipótese é indiferente a investidores. Receitas significativas nas provas da uefa também são residuais na óptica de investidores, visto que o Sporting não tem poderio para disputar estas provas até patamares realmente lucrativos com regularidade. Ora qual é a única hipótese de o Sporting ser atractivo para quem quer investir e ganhar dinheiro? Simples: tranformar o que sempre foi um clube desportivo com o objectivo de conquistar títulos e glória num entreposto de compra e (especialmente venda) de jogadores. É aqui que entra a galinha dos ovos de ouro para um investidor: a academia de Alcochete.
A academia de Alcochete, o único projecto de sucesso por entre tantos projectos ruinosos vindos da administração de José Roquette, tem sido capaz de produzir talentos de grande nível a um ritmo impressionante, que sendo lançados na equipa principal rapidamente são alvo do olhar atento de clubes grandes e endinheirados da melhores ligas do futebol europeu.
A academia de Alcochete é um "brand" de sucesso, o o jogador oriundo da academia é hoje um produto muito bem cotado no mercado internacional, e vários produtos da academia chegaram a um tremendo nível de reconhecimento no futebol internacional. E este será o motor de um futuro Sporting-empresa. Colocar cada vez mais jogadores oriundos da academia (ou "produtos", numa lógica mais empresarial) na equipa principal e mostrá-los num relvado que passará a ser uma montra para grandes clubes verem, em vez ser o palco onde o outrora Sporting CLUBE de Portugal disputava competições em busca de conquistas e glória para o seu palmarés. A academia não serviria para reforçar a equipa num plano de médio e longo prazo, mas sim para produzir jogadores para exportar. Este é aliás o discurso que os dirigentes já fazem passar para os jogadores em formação, dizendo-lhes que são o futuro do Sporting, não no sentido de virem a ser grandes jogadores no Sporting ou serem ídolos dos adeptos do Sporting, mas sim no sentido de serem vendidos para grandes clubes europeus e assim beneficiarem o Sporting não no plano desportivo mas sim através das receitas geradas pela venda dos seus passes. Para um investidor, isto é música celestial para os seus ouvidos. Afinal a academia apenas tem custos de manutenção de algumas centenas de milhares de euros por ano. Um verdadeiro negócio da China. E assim acaba por ser natural que os jovens jogadores, enfeitiçados pelas prematuras promessas que irão jogar rapidamente nas grandes ligas europeias, deixem de sentir orgulho e honra em representar o Sporting Clube de Portugal. O Sporting para eles é apenas um estágio, um ponto de passagem, uma escala no caminho que lhes prometeram (e incentivaram) que é uma mudança rápida para um Barcelona, Machester United, etc. E quando essa mudança tarda, ficam descontentes e insatisfeitos pois sentem que lhes venderam gato por lebre, como nos casos recentes de Veloso e Moutinho, que mostram que os nossos jovens jogadores logo aos 21 anos acham que já cá não deviam estar. E sob a óptica dos investidores, já não deviam, pois já podiam ter gerados boas receitas que se iriam traduzir no futuro em bons dividendos. E esse é que é o objectivo de uma empresa: gerar receitas e dividendos. E para isso os títulos são perfeitamente dispensáveis, pois tal como Soares Franco já disse, títulos trazem custos com prémios, investimento em jogadores, etc. Foi por isso que no final da época 2006 / 2007, na luz, o Sporting se agarrou com unhas e dentes ao empate, segurando assim o 2º lugar (que dava os mesmos benefícios financeiros que o 1º) e abdicando de tentar uma vitória que nos teria deixado em 1º lugar a uma jornada do fim.
Sob a mesma óptica de um Sporting-empresa cuja finalidade é gerar lucro e compensar investidores faz todo o sentido acabar com esse "empecilho" da modalidades, que não geram receitas logo faz todo o sentido acabar com elas. E Soares Franco nunca escondeu (excepto no jantar das modalidades onde optou por um discurso "menos verdadeiro") que lhes pretende pôr fim, sendo que o consecutivo "nim" à contrução de um novo pavilhão não passa de uma pseudo-promessa para ir entretendo os adeptos até levar a cabo os seus intentos. Esquece o Filipe Soares Franco que essas modalidades são dos principais responsáveis pelo prestígio do Sporting Clube de Portugal, e que essas modalidades ergueram a bandeira verde e branca bem alto enquanto o futebol acumulava desaires. Não é graças ao futebol que nos podemos orgulhar de sermos, depois do Barcelona, o clube com mais títulos da europa. Mas para os investidores os títulos nada valem. Títulos são troféus poeirentos num museu. E se as modalidades não geram receita, numa óptica empresarial faz todo o sentido serem descartadas.
Ora é assim que se compõe um Sporting-empresa, já antes anunciado por Soares Franco como um Sporting "só de futebol, sem sócios mas com adeptos que não se intrometam na gestão nem na escolha dos corpos sociais". Um clube só de futebol, que servirá para expôr produtos para vender, pois isso é que dá dinheiros, não os títulos, e uma empresa serve para gerar dinheiro.
Ora esquece-se o Filipe Soares Franco que os sócios e adeptos do Sporting não vão encher o Marquês do Pombal a comemorar grandes vendas nem grandes lucros, nem vão encher o mestádio Alvalade XXI a torcer por lucros e bolsos de investidores cheios. Os lucros e vendas são totalmente indiferentes aos adeptos a não ser que sejam sinal do reforço do clube no sentido de se tornar cada vez mais competitivo. Mas num Sporting-empresa, um clube nem tem que ser particularmente competitivo para gerar grandes receitas. Basta ver a venda de Nani e as vendas que já podia ter realizado com Moutinho e Veloso. Ser competitivo dá despesa.
Os adeptos são adeptos da instituição desportiva criada pelo Visconde de Alvalade, não querem saber de investimentos nem dividendos. Não são interesseiros e não querem saber de lucros e dividendos. Querem saber dos valores com que o clube foi criado, querem um clube competitivo, a lutar por grandes conquistas, a lutar pela glória, a honrar o seu passado e os mais de 100 anos de história. Uma empresa não precisa de glória, precisa de lucro.
À medida que os adeptos se vão apercebendo do que aí vem, vão olhando para o clube com cada vez mais nostalgia e menos entusiasmo. E vão começando cada vez mais, como Soares Franco diz, a desmobilizar. Soares Franco não percebe porque agora que até se tem tido algum sucesso em competições secundárias, os adeptos revelam muito menos "militância" do que quando nada ganhávamos. Não percebe porque apesar da sua formação e currículo na área de gestão de empresas, Soares Franco não faz a mínima ideia do que é um clube, do que é paixão clubística, do que é ser um adepto. Não percebe que adeptos não são a mesma coisa que clientes, e naturalmente não entende porque não houve resposta a medidas como o "cartão dos pontos" ou ao marketing de promoção da gamebox.
Porque adeptos e clientes são coisas muito diferentes. Clientes querem "pontos" e "vantagens", os adpetos não querem vantagens, adeptos querem um Sporting grande e forte. E não pedem nada em troca por serem adeptos. Querem um Sporting como o clube desportivo que sempre foi, não querem saber de cartões de pontos nem de lucros nem dividendos. Cartões de pontos já há os da BP, Continente, Jumbo, Worten, etc onde aí sim os adeptos são clientes. No Sporting são bem mais do que meros "clientes" e é isso que Soares Franco nunca irá entender. E não entende porque cada vez menos adeptos vão engolindo as suas cantigas de embalar. Só espero que ainda a tempo de salvar o que resta do clube, e de evitar que a grande instituição Sporting CLUBE de Portugal se torne o que Soares Franco e seus pares querem fazer dele.
7 comentários:
Caros amigos,
os meus parabéns por este blog bem interessante.
As vossas análises são bastante inteligentes e denotam um entendimento do clube muito para além da poeira para os olhos que os nossos dirigentes e alguma alguma comunicação social tentam incutir.
Mas as vossas críticas bem estruturadas são apenas uma das fases da moeda. A outra, porventura que me interessaria muito mais, é uma alternativa concreta. Se é relativamente fácil substituir o Paulo Bento por outro treinador que talvez ponha as peças do puzzle no sítio certo, já encontrar uma alternativa ao FSF me parece mais complicado pela simples razão de que ainda não vi ninguém com mais credibilidade (e nem é preciso muita para superar o FSF) a chegar-se à frente. E depois não é só uma questão de pessoas, mas sobretudo de filosofia de gestão: como financiar o ecletismo que queremos para o nosso clube? Haverá uma alternativa viável ao clube-empresa? Será assim tão prejudicial explorar a galinha dos ovos de ouro que é a Academia?
Espero que este e outros blogs consigam motivar pessoas com capacidade para formarem um projecto que seja uma real alternativa à gestão do FSF nas próximas eleições ... mas tenho as minhas dúvidas.
Um grande abraço deste companheiro do fórum,
RugidoVerde
Amigo Rugido Verde antes de mais obrigado por teres passado por cá.
Realmente o factor que apontas em relação às alternativas a Soares Franco é um problema bem real, infelizmente... O +unico que "apareceu" foi o Abrantes Mendes que ainda não se viu qualquer projecto ou proposta para o futuro do Sporting. Apenas aparece "de fininho" nos maus momentos para mandar uma boca, e isso não chega para quem quer ser presidente. E infelizmente o tempo passa e mais ninguém aparece com ideias e capacidade para dar rumo ao clube. Infelizmente assim é, porque o rumo que Soares Franco lhe quer dar não me agrada minimamente...
Quanto à questão do ecletismo, pergunto será que as modalidades são um fardo assim tão terrivelmente prejudicial para o Sporting? Como foram sustentadas essas mesmas (e muitas mais) modalidades até há poucos anos atrás? Terá sido feito algum esforço no sentido de se patrocinarem as modalidades? Porque é que não é divulgado o custo real dessas modalidades?.. Porque os jogos das modalidades não são disputados em alvalade em horários antes dos jogos de futebol para incentivar as pessoas a ir mais cedo e ver um jogo de andebol, futsal, etc? Ah pois, lembrei-me porquê... Não temos pavilhão em alvalade...
Explorar a academia por si só não é prejudicial. O problema é se essa galinha dos ovos de ouro passar a ser o epicentro da actividade do futuro clube-empresa, já que é claramente o ponto mais lucrativo do clube. Se a academia for utilizada para gerar talentos para reforçar o clube, e esses talentos forem vendidos por volta dos 25, 26 anos após terem sido úteis ao Sporting e o dinheiro das suias vendas fôr utilizado para reforçar a equipa e torná-la mais competitiva, então tudo bem. MAs esta é a perspectiva de um clube-clube, onde as receitas servem para reforçar a actividade do clube que é competir e ganhar titulos. Num ponto de vista empresarial, os titulos são indiferentes, o que importa é obter lucros e dividendos para os investidores. E quem está no clube para ganhar dinheiro, os investidores, não quer que o clube "esbanje" as suas receitas no reforço da actividade desportiva pois o objectivo de um investidor é ganhar dinheiro e não titulos. Eu acho que a altenrativa clube-clube é perfeitamente viável. Sempre foi, e ainda não consegui discernir uma única vantagem de termos passado a ser uma SAD, para além do encaixe inicial de dinherio, fruto da dispersão inicial do capital em acções, dinheiro esse que foi rápidamente (mal) gasto. E foi desde que nos tornámos um clube-empresa que chegámos ao belo estado em que estamos agora...
Tal como tu espero que surja alguém credível para concorrer às próximas eleições!
Um grande abraço e mais uma vez obrigado por passares por cá!
Quando lancei a pergunta de como financiar o ecletismo que queremos para o clube, não queria sugerir que as modalidades são um grande encargo. De facto, eu nem sei se as modalidades serão um fardo grande ou pequeno porque não tenho tempo nem paciência para averiguar.
O que eu sei é que o 1906 tem toda a razão quando exige que se honre e respeite a história do clube e se restabeleça o Hóckey e Ciclismo (entre outras modalidades).
E tem de haver dinheiro para tornar isso possível. Antigamente havia portanto agora também tem de haver. A história do pavilhão já roça o ridículo. Mas obviamente que o financiamento das modalidades tem de ser discutido. O que eu queria é que surgisse um candidato à presidência que tivesse a coragem de assumir o ecletismo do clube como uma prioridade, mesmo que isso implicasse cortar no futebol!!
Eu acho que esta é uma das questões fundamentais que eu gostava de ver discutidas por eventuais candidatos.
Quanto aos restantes pontos da tua resposta ao meu comentário, penso que me entendeste e estamos em sintonia.
Abraço, RugidoVerde
"Porque adeptos e clientes são coisas muito diferentes. Clientes querem "pontos" e "vantagens", os adeptos não querem vantagens, adeptos querem um Sporting grande e forte. E não pedem nada em troca por serem adeptos. Querem um Sporting como o clube desportivo que sempre foi, não querem saber de cartões de pontos nem de lucros nem dividendos."
É aqui que eu assino por baixo.
Com a restante análise também estou de acordo, mas... há sempre muitos "mas" nas questões financeiras dos clubes desportivos e quem somos nós, adeptos de coração para perceber a melhor forma de lhes dar a volta?
Por isso insisto na frase - adeptos e clientes são coisas muito diferentes - e como adepta só quero ver o meu clube jogar, jogar bem e ganhar, ganhar tudo e a todos. Haverá algum mal nisso?
As SAD's e a sua Administração é que trouxeram complicações e muitas... à gestão dos clubes de futebol.
Desculpem a minha ignorância de macaca.
Rugidos de preocupaçao
Cara Tite obrigado por ter passado por cá e deixado a sua opinião!
É verdade que Soares Franco pode perceber muito de gestão de empresas mas não conseguem compreender que o Sporting não é uma empresa e os Sportinguistas não são clientes.
Há no entanto um aspecto n oseu comentário que discordo. É quando refere "quem somos nós, adeptos de coração para perceber a melhor forma de lhes dar a volta"... Eu acho que nós, sócios e adeptos do Sporting devemos tentar, independentemente de termos mais ou menos conhecimentos da matéria, perceber o que se passa no clube, tentar obter informação, esclarecimentos e criticar, questionar e apresentar e discutir ideias e pontos de vista. Porque só assim estaremos a salvo de que nos atirem poeira para os olhos. Mesmo que nem todos percebam muito de certas áreas, nunca nos devemos demitir de procurar saber o que se passa e de criticar e sugerir alternativas e pedir esclarecimentos.
Um grande abraço!
Amigos,
Parabéns por este excelente blog.
Sou apenas uma fervorosa adepta leonina e sofro muito com o meu Sporting, não só com as derrotas mas, agora e também, com todas estas situações, aparentemente marginais, não o sendo.
Particularmente as questões económica/financeiras que sempre me passaram ao lado e que, pelo facto de terem transformado os clbes em SAD's, vieram confundir-nos e complicar o sistema.
Felizmente que existe a net e a blogesfera.
E, assim sendo, tudo se torna mais claro e transparente.
Bem hajam.
Cara Tina obrigado pela sua visita e por ter deixado a sua apreciação.
De facto nós Sportinguistas sofremos e muito com as derrotas. Mas a verdade é que as derrotas ainda conseguimos digerir, mesmo que com muito custo. Agora que meia dúzia de indivíduos queiram retirar o clube aos sócios e adeptos e transformá-lo numa empresa de exportação de jogadores para lucro de particulares, isso sim já é um caroço demasiado grande para engolirmos! O Sporting sempre foi e sempre terá que ser dos sócios, e o foco terá que ser sempre o êxito desportivo e não a distribuição de lucros.
Um abraço!
Enviar um comentário